Schumacher é o melhor de sempre ?

Schumacher celebrando uma das suas 91 vitórias

Há um constante debate sobre quem foi o melhor piloto de Fórmula 1 de todos os tempos. Se olharmos exclusivamente para os números, então Michael Schumacher é “O Maior”. 7 títulos mundiais, 91 vitórias, entre outros recordes.

Schummy teve duas passagens na F1. A primeira de 1991 a 2006. A segunda de 2010 a 2012. Falaremos apenas da primeira passagem, que a segunda não deixou marca…

Um feliz da vida Schummy na sua estreia na F1 na Bélgica em 1991

Schumacher estreou-se na F1 no Grande Prémio de Bélgica de 1991. Começou pela Jordan e logo com um brilhante sétimo lugar na qualificação, numa pista que não conhecia e ainda para mais sendo Spa-Francomchamps…

Na corrida seguinte, em Monza, transfere-se para a Benetton-Ford. Logo de enfiada, bate sem apelo nem agravo, o veterano tricampeão do mundo e seu colega de equipa Nelson Piquet. Supera o brasileiro tanto em qualificação como em corrida, “terminando” mais cedo com a carreira de Piquet no final da temporada, ao ser constantemente mais rápido que o piloto de Brasília nas rondas finais de 1991.

No ano seguinte, fica em terceiro lugar no mundial de pilotos. Com múltiplas idas ao pódio, vence também pela primeira de 91 vezes na carreira e logo na pista onde se estreou em 1991, em Spa-Franconchamps. Passa definitivamente de promessa a certeza.

Em 1993 vence outra vez, no Grande Prémio de Portugal (e na última vez que a F1 competiu no Autódromo do Estoril utilizando a curva do Tanque…), repete novamente vários pódios, tem muitas lutas com Ayrton Senna pelo lugar de melhor não Williams, terminando em quarto lugar final na classificação dos pilotos.

A partir de 1994, “explode” definitivamente. Vence em condições polémicas o seu primeiro campeonato, mas merecidamente, pois só devido a duas corridas de suspensão, mais outras tantas desclassificações de Schumacher, mantiveram Hill na corrida pelo título, até à última ronda em Adelaide.

Em 1995, quase sem polémicas, tirando a corrida em Spa, em que mudou várias vezes de direcção à frente de Damon Hill, que o tentava ultrapassar na reta Kemmel a quase 300 kms por hora, o que se fosse hoje era drive through, no mínimo…

No entanto, alcançou o seu segundo título “sem espinhas”, mostrando naquele ano quem era de facto o melhor e que sem desclassificações e corridas de suspensão, Hill e a Williams não tinham hipóteses, em carros com andamento semelhante.

Em 1996 passa para a Ferrari, iniciando aí um longo caminho de reconstrução da equipa italiana, que culminou em quatro títulos consecutivos, de 2000 a 2004.

Nas épocas de Benetton, de 1991 a 1995, Schumacher teve colegas de equipa pilotos que estavam em fim de carreira, como foram os casos de Nelson Piquet em 1991 e Riccardo Patrese em 1993.

Nelson Piquet ainda todo sorrisos antes de ter Schumacher como seu colega de equipa…

Pilotos medianos que aqui e acolá tinham uma performance acima da média, com Martin Brundle em 1992 e Johnny Herbert em 1995. Consistentes, rápidos e obedientes escudeiros de Schummy na Ferrari, Eddie Irvine de 1996 a 1999 e Rubens Barrichello de 2000 a 2005.

Martin Brundle e Michael Schumacher em 1992

Portanto, Schumacher, ao contrários de outros campeões como Senna e Prost, que para além de terem sido colegas de equipa na McLaren, ambos tiveram como vizinhos de garagem pilotos de enorme calibre, como foi o caso de Prost com Lauda em 1984 e 1985, Senna em 1988 e 1989 na equipa de Woking, Nigel Mansell e Jean Alesi na Ferrari em 1990 e 1991.

O trio maravilha, Senna Prost e Ron Dennis

Senna, por seu lado, teve como colegas de boxe os rápidos e consistentes Elio di Angelis na Lotus em 1985, na McLaren teve Gerhard Berger de 1990 a 1992, o tetracampeão do mundo Alain Prost em 1988 e 1989, bem como o super rápido, talentoso, futuro bicampeão campeão do mundo de F1, Mika Hakkinen, nas últimas corridas de 1993.

Colegas de equipa e grandes amigos, Berger e Senna no Estoril

Schumacher nunca teve verdadeiramente competição interna. Era muito melhor que os seus colegas de equipa, porque tirando o tricampeão do mundo Piquet em 1991 e já com o brasileiro em fim de carreira, os restantes parceiros de garagem que teve até 2006, foram claramente seus segundos pilotos, escolhidos a dedo pelas respectivas lideranças das equipas onde competiu e com o aval final de Schumacher.

E quando os colegas de equipa pontualmente eram mais rápidos que o alemão, imediatamente ou na corrida seguinte eram recambiados para o seu posto, colocados no lugar pública ou privadamente, como aconteceu com Rubens Barrichello na Áustria em 2002.

Ora, podemos dizer que o alemão não tem culpa disto. Flavio Briatore na Benetton e Jean Todt na Ferrari quiseram este organograma. Schumacher por seu lado também não se importou. Mas sem dúvida que nunca teve de se preocupar com o colega de boxes.

O mesmo é também apontado a Nelson Piquet, nos seus anos de Brabham de 1978 a 1985. O brasileiro que foi campeão do mundo em 1981 e 1983, nunca teve um colega de equipa que lhe desse luta.

Nelson Piquet nos seus gloriosos tempos de Brabham

Mas depois, foi para a Williams e aí sim teve muita competição interna, de Nigel Mansell. Perdeu em 1986 para o inglês, mas venceu no ano seguinte o duelo interno e sagrando-se campeão do mundo, pela terceira vez na carreira.

Nelson Piquet vitorioso em 1987

Schumacher também foi acusado de ceder sob pressão, nos momentos chave na decisão de um título. Assim foi em 1994, quando na última corrida do ano, em Adelaide, com Damon Hill perto de si, bateu sozinho contra o muro, danificando o carro.

Num ato de desespero do alemão, quando Hill tentava, precipitadamente, a ultrapassagem ao alemão, não sabendo que o carro deste estava danificado, Schumacher jogou o carro para cima do seu rival britânico, pondo os dois definitivamente fora de prova, com isso vencendo o seu primeiro título.

Título, que na verdade, foi justamente seu, pois se não fossem as desclassificações e duas corridas de suspensão, Hill nunca teria chances de chegar a Adelaide a 1 ponto de Shummy, apesar de também ter vencido com muita arte e engenho em Suzuka e com muita autoridade em Silverstone.

O inglês aproveitou igualmente as corridas em que Schumacher teve suspenso para triunfar, ou quando o alemão foi desclassificado, ou teve problemas mecânicos. Portanto, foi preciso estar lá para aproveitar e Hill esteve.

Mas a verdade, é que Schumacher foi o piloto que mais venceu em 1994, fez mais poles, mais voltas mais rápidas, liderou mais voltas, por isso e independente da manobra “suja” que lhe deu o título, no cômputo geral, mereceu ser campeão.

A primeira vitória de Schumacher no Mónaco em 1994

Em 1995, Schumacher não deu chances a Hill, sem desclassificações e suspensões, venceu com autoridade e relativa tranquilidade o campeonato.

Quando voltou novamente a ter carro para lutar pelo campeonato, em 1997 e já de Ferrari, apesar de o mesmo ser relativamente inferior ao Williams-Renault do canadiano Jacques Villeneuve, Schumacher chegou à última corrida do ano 1 ponto à frente do canadiano.

Mas, uma vez mais sobre pressão, ao ver que não tinha andamento para aguentar Villeneuve atrás de si, quando este mete por dentro para o ultrapassar no gancho da curva Dry Sack, no circuito Jerez de la Frontera, Schumacher tentou replicar o que fez a Hill em 1994 em Adelaide.

Mas desta vez a manobra não resultou, tendo unicamente o alemão saído a perder, ficando fora de prova e assistindo de cadeirão a Villeneuve terminar em terceiro lugar, o que foi suficiente para garantir o título de 1997.

Em 1998 lutou pelo campeonato com o finlandês Mika Hakkinen. Uma vez mais o carro do adversário, o McLaren-Mercedes, era ligeiramente superior ao Ferrari de Shummy. Mas na ronda decisiva, em Suzuka, Hakkinen venceu, assegurando o seu primeiro título.

Hakkinen e Schumacher

Schumacher, que partia da pole, deixou o carro ir abaixo na volta de formação, tendo de partir por isso de último, talvez cedendo à pressão, uma vez mais… O germânico estava no entanto a fazer uma excelente corrida de recuperação, quando teve de desistir com um pneu furado.

Em 1999, com o Ferrari ainda mais próximo do McLaren em termos de rendimento, Schumacher ao tentar ultrapassar o seu colega de equipa Eddie Irvine em Stowe, em Silverstone ( o irlandês que estava a fazer a melhor temporada da sua carreira, acabando quase por sagrar-se campeão, até que Mika Hakkinen “acordou”…), ou por falha mecânica ou erro do piloto, nunca ficou cabalmente esclarecido, Shummy bloqueou as rodas, seguiu reto em Stowe, bateu contra a protecção de pneus e partiu a perna, ficando irremediavelmente de fora da luta pelo título.

Voltou no entanto na penúltima corrida do ano, em Sepang, em grande estilo, com uma expressiva pole e só não venceu tranquilamente, porque cedeu o primeiro lugar ao seu colega de equipa Eddie Irvine, que lutava pelo título de 1999 com Mika Hakkinen.

Depois em 2000, em mais um duelo com Hakkinen pelo campeonato até à última corrida da época, uma vez mais em Suzuka, Schumacher finalmente “não bateu na trave”, como em 1997 e 1998 e deu à Ferrari o seu primeiro título de pilotos desde 1979. Foi o início de um domínio avassalador de Schumacher e da Ferrari, que durou até 2004, só equiparável ao que a Mercedes e Hamilton têm feito desde 2014.

Nesse pentacampeonato de Schummy e da Ferrari, só em 2003 tiveram verdadeira luta até ao fim, pois em 2001, 2002 e em 2004 foi um passeio. Como já referi anteriormente, Schumacher não tinha concorrência interna, primeiro Irvine de 1996 a 1999, depois Barrichello de 2000 a 2005, ambos não lhe davam luta, as vezes em que Rubinho estava mais ritmo que Schumacher, foi relembrado por Jean Todt e Ross Brawn do seu lugar, de segundo piloto.

Rubens Barrichello e Michael Schumacher no Canadá em 2000

A concorrência que Schumacher tinha nesses cinco anos de hegemonia Ferrari era externa e de alto calibre de talento dos pilotos em questão, assim os carros dos adversários podiam competir com o Ferrari do alemão, como foram os casos de Hakkinen de McLaren-Mercedes em 2000, de Montoya em Williams-BMW e de Kimi Raikkonen também em McLaren-Mercedes em 2003.

Em 2005, finalmente a Ferrari não teve um carro superior aos outros, aliás, naquele ano os monolugares a bater eram o Renault e o McLaren e Schumacher só por uma vez venceu, na infame corrida de Indianápolis, em que só participaram 6 carros de 20, devido à desistência por motivos de segurança de todos os carros com pneus Michelin.

Mesmo nessa corrida, em que Schumacher nem estava na luta pelo título, Barrichello foi impedido de lutar pela vitória pela equipa, tal como já tinha acontecido na Áustria em 2002…

Em 2006, a Ferrari teve novamente carro para fazer frente aos campeões do mundo em título, Fernando Alonso e a Renault. Foi uma temporada taco a taco entre Schumacher e Alonso, em que o alemão teve mais um momento polémico, no Mónaco, quando propositadamente estacionou o carro em Rascasse, na última curva do circuito citadino, argumentando que tinha falhado a travagem e com essa manobra impediu todos os outros pilotos de melhorarem os seus respectivos tempos, em particular o seu rival Alonso que vinha numa grande volta.

Mas a direcção de prova não foi na cantiga e Schumacher foi penalizado, indo para o final da grelha e comprometendo as hipóteses de vitória. No final da temporada, Alono sagrou-se bicampeão, Schumacher fez uma excelente época, mas não chegou para destronar o jovem Alonso, a nova estrela da F1.

Schummy anunciou a retirada da F1 em Monza no final da temporada de 2006 e despediu-se em grande estilo em Interlagos. No entanto, a despedida acabou por ser revertida com o regresso em 2010 à F1 e à Mercedes, equipa onde tinha competido no início da década de 90, no Mundial de Sport Protótipos.

Em jeito de conclusão, considero Michael Schumacher um dos melhores pilotos de todos os tempos seguramente. Assisto F1 desde os meus seis anos, tenho recordações das corridas desde 1986 e para mim Schumacher é um dos Grandes sem dúvida. Coloco-o no top 3 dos melhores que já vi competir.

Mas não o coloco como número 1. Porquê ? Porque faltou a Schumacher concorrência interna pelas equipas onde passou, sobretudo na sua primeira passagem na F1, entre 1991 e 2006 (teve como colega de equipa na segunda passagem na F1, de 2010 a 2012, o campeão do mundo de 2016 Nico Rosberg, que claramente foi superior ao 7 vezes campeão…).

Apresentação da equipa da Mercedes em 2010, com Nico Rosberg e Schumacher

Schummy, teve colegas de equipa que nunca lhe fizeram frente, primeiro porque Schumacher era bem melhor que eles, depois porque nos dias em que os mesmos até estavam ao mesmo ritmo ou um pouco mais rápidos que o alemão, devido a serem segundos pilotos eram imediatamente postos no lugar e impedidos de ficar à frente do germânico, mesmo que a posição de Schumacher na luta pelo título não estivesse em perigo, ou até já não era possível lutar pelo mesmo.

Schumacher também teve um carro muito superior aos demais em 2001, 2002 e 2004. Não tinha concorrência a Ferrari e havia pilotos de enorme qualidade nessas épocas, que mais tarde se sagraram campeões do mundo, como foram os casos de Alonso, Raikkonen, Jenson Button, todos foram campeões mais tarde nas suas carreiras, mas nessas temporadas não tinham equipamento para fazer frente a Schumacher.

Um das muitas vitórias em 2004, ano do sétimo e último título de Schummy

Schumacher era um génio. Era incrivelemente veloz, um mestre da tática, um excelente afinador de carros, tecnicamente um piloto de eleição, um agregador da equipa à sua volta, criando uma relação familiar com os mecânicos, engenheiros, com as chefias, colocando a equipa toda a trabalhar unida e em torno do alemão.

Numa época dos reabastecimentos na F1, em que as corridas eram provas de sprint puro e duro, Schummy fazia autênticos turnos de qualificação nas provas. Mas, faltou-lhe na minha opinião, ter tido competição interna na sua primeira carreira na F1, entre 1991 e 2006. Nelson Piquet e Riccardo Patrese em final de carreira, Jos Verstappen, JJ Lehto, Johnny Herbert, Eddie Irvine, Rubens Barrichello e Felipe Massa, nunca lhe fizeram frente.

As manobras pouco desportivas, em 1994 e 1997, nas decisões dos títulos também não lhe granjearam fãs. Mas o que sobretudo lhe trouxe muitos “antis”, até aos dias de hoje, foi um mal entendido ou falha de comunicação do qual Schumacher foi completamente alheio.

No dia 1 de Maio de 1994, dia do fatídico Grande Prémio de San Marino, em que Ayrton Senna perdeu a vida, no final da corrida, quando Schumacher cruzou a linha de meta, levantando o punho em sinal de vitória e depois celebrando no pódio a mesma, muitos dos milhões de fãs de Senna pelo mundo foram, ficaram chocados e revoltados com a frieza e indiferença do alemão nesse dia.

Quando nesses momentos o mundo achava que Senna estava a lutar pela vida, como é que era possível Schumacher estar a celebrar, quando um colega de profissão estava a morrer ? A verdade é que o alemão não sabia da gravidade do estado de Senna, nem muito menos sabia que o brasileiro estava apenas “vivo” porque a lei italiana assim o obrigava, pois já estava em morte cerebral desde que bateu no muro da curva Tamburello.

Portanto Schumacher, tendo sido posto “no escuro” pela sua equipa sobre o real estado de Senna, teve uma atitude involuntária em Imola, que durante muitos anos demorou a apagar. Muitos nunca lhe perdoaram. Talvez porque nem quiserem perceber o que de facto aconteceu.

Schumacher uns anos mais tarde, quando igualou o número de vitórias de Senna, em Monza em 2000, quando foi questionado sobre o que isso significava para ele, na conferência de imprensa pós corrida, desatou num choro descontrolado. O alemão de gelo não tinha nada, era emocional, cabeça quente, carismático, polémico, rápido, genial.

Para terminar, coloco Schumacher como o terceiro melhor piloto que já vi correr. Deixo quem considero os dois melhores para outro Bandeira de Xadrez…

One thought on “Schumacher é o melhor de sempre ?

  • Abril 23, 2020 at 6:24 pm
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    para mim foi o maior a ter de comparar alguem com ele so mesmo PROST que ganhou ao senna lauda rosberg mansell e hill

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