Quando os Grandes Prémios eram em Adelaide

Desde 1985 que a Fórmula 1 (F1) visita a Austrália, tendo até 1995 o Grande Prémio da Austrália sido realizado nos 3780 metros do circuito citadino de Adelaide.

Nesse longínquo fim de semana de Novembro de 1985, de encerramento da época, pois até 1995 a F1 terminava as temporadas em Adelaide, teve como primeiro grande motivo de interesse, mais uma das muitas míticas voltas banzai do brasileiro Ayrton Senna na qualificação, que lhe deu uma das suas 65 pole position, no seu lindo preto e dourado Lotus-Renault.

Depois, na corrida, tivemos um fantástico duelo pela vitória entre Senna e Keke Rosberg no Williams-Honda, com a vitória e última da carreira a ficar para o campeão do mundo de F1 de 1982 e pai do campeão do mundo de 2016, Nico Rosberg.

Na edição seguinte, tivemos a grande final do Campeonato do Mundo de F1 de 1986, com Nigel Mansell, Alain Prost e Nelson Piquet a lutarem pelo título, ficando o ceptro no final nas mãos de Prost, em McLaren TAG Porsche (sim, a Porsche já esteve na F1…).

Piquet, Prost e Mansell, os 3 candidatos ao título, em Adelaide, 1986

Foi uma corrida emocionante, com vários golpes de teatro, em que a arte e engenho do Professor estiveram a um nível elevadíssimo, levando Prost ao seu segundo de quatro títulos, mesmo tendo um carro inferior aos Williams-Honda de Piquet e Mansell.

Nas edições seguintes, destaque para uma das grandes vitórias de Gerhard Berger, pela Ferrari em 1987, uma corrida em que fez a pole, liderou do principio ao fim da corrida, fez volta mais rápida, umas das actuações mais avassaladoras do austríaco.

Gerhard Berger e o espetáculo da bandeira de xadrez, típico dos Grandes Prémios em Adelaide

Em 1989, tivemos uma prova decorrida em condições climatéricas que se fosse hoje em dia seria a corrida toda atrás do safety-car, ou então não haveria prova de todo.

Chovia copiosamente, visibilidade reduzida, muitos acidentes, alguns potencialmente graves ( https://www.youtube.com/watch?v=uzIpBl3Efeg ), mas no fim sem nada felizmente a apontar.

O início da corrida em 1989, prova que se fosse hoje não aconteceria certamente…

A vitória ficou para o belga Thierry Boutsen, no Williams-Renault, mas com o destaque do dia a ir para o japonês Satoru Nakajjima, que fez uma excelente corrida, terminando em 4º no melhor resultado da sua carreira, em terríveis condições e numa decadente Lotus, com o seu fraco motor Judd.

Thierry Boutsen a receber o troféu pela segunda vitória da sua carreira, em 1989

O Lotus-Judd, foi um dos muitos ineficazes carros do mítico Team Lotus a partir de 1988, que infelizmente foi sempre a piorar até fechar de vez as portas no final de 1994. Isto porque a Lotus, na F1, terminou de vez em 1994, pois a “Lotus” que tivemos entre 2010 e 2015 era a fake Lotus, como chamavam e bem os ingleses.

Satoru Nakajjima, no seu Lotus-Judd, a caminho do 4o lugar e melhor resultado da carreira, em 1989

Em 1990, assistimos à penúltima vitória do tricampeão do mundo de F1, o brasileiro Nelson Piquet em Benetton-Ford, o patriarca do clã de pilotos Piquet, composto por Nelson Sr e os filhos Nelson Piquet Jr e Pedro Piquet.

Na minha opinião, Piquet pai é entre os 3 pilotos, o verdadeiramente talentoso, um génio da mecânica, da afinação do carro, de desenvolver até ao mais íntimo detalhe o monolugar, mas era também um muito “venoso” personagem…

Pedro e Nelson Piquet

Foi o último grande triunfo do piloto nascido no Rio de Janeiro (https://www.youtube.com/watch?v=Kkk3yCyyVoE ), uma derradeira actuação de classe do tricampeão, ele que já andava no sentido descendente da carreira desde 1988.

Piquet, teve em Adelaide e na parte final da temporada de 1990, a sua última boa fase condizente como um dos grandes campeões do mundo que a F1 já teve. Terminou a temporada de 1990 com duas vitórias e o terceiro lugar final no campeonato.

Nelson Piquet a receber a quadriculada, na sua penúltima vitória na F1, em 1990

Em 1991, foi a última época de Piquet na F1, em que foi claramente batido, logo desde que se tornaram colegas de equipa na Benetton, a partir da ronda 12 em Monza, por um estreante, um tal de Michael Schumacher…

As boxes da equipa Benetton em 1991, com o estreante e jovem Schumacher e ao seu lado o veterano Nelson Piquet

Na edição de 1991 do Grande Prémio da Austrália, a direcção de prova ainda cometeu o “suicídio” de deixar a corrida começar, com condições meteorológicas ainda piores das já terríveis condições climatéricas de 1989.

Mas depois de acidentes em sequência, uma vez mais com a sorte de ninguém se magoar, o “espectáculo” foi interrompido ao final de pouco mais de dez voltas, com a vitória para o recém coroado tricampeão do mundo de F1, o brasileiro Ayrton Senna em McLaren-Honda.

Por falar no mágico brasileiro, em 1993, sem ninguém na altura imaginar, Senna venceu pela última vez na carreira, no seu McLaren-Ford, seguido do tetracampeão do mundo Alain Prost ( que se despedia da F1 ) e do seu colega de equipa Damon Hill, ambos no “carro do outro planeta”, que era como Senna se referia aos tremendamente superiores a todos os outros Williams-Renault.

Em 1994, tivemos outra decisão pelo título em Adelaide, envolvendo o alemão Michael Schumacher e o inglês Damon Hill, ficando o campeonato para o germânico. Foi o seu primeiro de sete títulos e também a primeira grande acção muito polémica numa decisão do título por parte de Schumy.

A segundo momento negro do hepta campeão do mundo alemão foi contra outro Williams, o do canadiano Jacques Villeneuve, em 1997 em Jerez de la Frontera (https://www.youtube.com/watch?v=3E5Pxmvz0r8 ), mas neste caso foi “karma is a bitch” para Shumacher…

O momento karma de Michael Schumacher, Jerez em 1997…

Também em 1994 em Adelaide, tivemos a última vitória de Nigel Mansell na F1, na equipa onde teve quase todos os grandes momentos de felicidade da sua carreira, na Williams.

Nigel Mansell a celebrar a sua última vitória, em 1994 em Adelaide

Em 1995, correu-se pela última vez em Adelaide, num fim de semana marcado pelo gravíssimo acidente de Mika Hakkinen na qualificação (https://www.youtube.com/watch?v=4j6aoeKGDd8 ), tendo depois, como vencedor do Grande Prémio, Damon Hill em Williams-Renault.

Foi uma corrida atípica, com o seu colega de equipa e até então líder da prova, o escocês David Coulthard, a bater contra o muro de entrada nas boxes, quando se dirigia para o pitlane para a troca de pneus e reabastecimento.

A largada para o último Grande Prémio em Adelaide em 1995

Também assistimos nessa derradeira visita da F1 a Adelaide, ao “nosso” Pedro Lamy a dar um “espetáculo” de piões, mas a conseguir voltar à corrida e dando o primeiro ponto de um português na F1, no seu Minardi-Ford. Por último, tivemos igualmente o último pódio da Arrows, pelas mãos de Gianni Morbidelli.

A partir de 1996 e até hoje, o “circo” da F1 foi para Melbourne, onde tem sido quase sempre o Grande Prémio de abertura da temporada.

Pessoalmente, preferia em termos de espectáculo em pista, o circuito de Adelaide, pois Melbourne, não descurando a culpa da aerodinâmica dos F1 impedir de seguir de perto o carro da frente, não costuma dar grandes shows em termos de corrida propriamente dita, no entanto considero Melbourne um circuito superior em termos de condução do que Adelaide.

Venha dai então o fim de semana para se dar início ao 70º Campeonato do Mundo de F1 !

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