Hoje é dia 12. Dia do filósofo Ayrton Senna.

Hoje é dia 12. Dia de Ayrton Senna, do Lotus de 1985, 1986 e 1987, e do McLaren de 1988. Também poderia ser o dia 19, do ano de estreia na Toleman, em 1984. Ou o número 27 que ostentou e com que foi campeão em 1990. Há ainda o número 8 de 1993 e, claro, o número 1 utilizado em 1989, 1991 e 1992.  

Como se vê, existem muitos dias para se falar de Ayrton Senna. Do mesmo modo, uma das grandes inspirações da minha vida (e talvez o único ídolo de que me recorde) é, já devem ter percebido… Ayrton Senna. Nunca questionei o motivo, mas não deixa de ser estranho que alguém que tinha apenas 8 anos no dia da sua morte — o fatídico 1 de Maio de 1994 — tenha tão presente esse dia e igualmente toda a tragédia que se abateu sobre esse fim-de-semana. Do voo de Rubens Barrichello durante os treinos livres, ao acidente fatal de Roland Ratzenberger no Sábado anterior à corrida e à confusão que se instalou na primeira largada de Domingo, quando o nosso Pedro Lamy não evitou o Benetton de J.J. Lehto que se encontrava parado na linha de partida. 

Lembro-me de tudo, apesar de a minha racionalidade insistir que era apenas ao Domingo que eu via os Grandes Prémios na casa da minha tia-avó e na companhia do marido desta, para quem aquele hábito de se sentar em frente à televisão para ver a Fórmula 1, no cadeirão revestido a pele que se encontrava na sala de estar, era um ritual tão solene como o almoço de todos os dias.

O que quero dizer com isto é que, muito provavelmente, não terei acompanhado os dois momentos que antecederam o dia 1 de Maio em direto. Terão sido vistos pela primeira vez nas notícias do Telejornal dos dias anteriores ou repetidos algures durante a transmissão do Grande Prémio de San Marino. Nessa época ainda não contava com o luxo da TV Cabo, muito menos da internet, e, portanto, dificilmente poderia ter tido conhecimento por outras vias.

É também por estes motivos que tenho presente que tudo o que se seguiu para formar o mito na minha cabeça foi uma construção composta por artigos que li, histórias que me foram contadas, horas perdidas no YouTube a ver documentários, onboards e entrevistas, e finalmente a partilha gerada por dezenas de pessoas com quem me cruzei e que, tal como eu, sentiam uma profunda paixão pela vida e obra de Ayrton Senna.

De regresso a 1 de Maio de 1994, e apesar de ser hoje a pessoa mais cética que conheço, recordo-me perfeitamente de que na freguesia de Santo António, Funchal, Ilha da Madeira — local onde tinha sido erigida a casa da minha tia-avó, do meu avô e de pelo menos dois dos seus irmãos —, o ar era denso. E que a confusão dessa primeira partida me havia transmitido a sensação daquela corrida estar, de certo modo, enguiçada. 

Quando o Williams nº 2 conduzido por Ayrton Senna embateu contra o muro na curva de Tamburello, local onde anos antes o austríaco Gerhard Berger (que viria a tornar-se o meu piloto favorito depois de Senna) tinha sofrido um terrível acidente, senti algo entre estupefação, pelas circunstâncias em que tudo tinha sucedido e por o piloto continuar inamovível dentro do carro, e esperança — inerente à sua retirada por helicóptero em direção ao Hospital. 

Mais tarde, uma profunda revolta interna por ver Michael Schumacher a festejar um triunfo como se nada tivesse acontecido, num fim-de-semana, todo ele, repleto de dramatismo (cólera que eternizou o meu antagonismo para com o piloto alemão) e finalmente uma tristeza muito grande quando, cerca de cinco horas depois desse acidente, se confirmou a morte de Ayrton Senna.

Não sou pessoa de grandes choros, mas lembro-me de verter algumas lágrimas nesse dia e de ficar absolutamente boquiaberto com a multidão que religiosamente acompanhou o trajeto do ídolo no dia do seu funeral, em São Paulo. 

A introdução vai longa, mas quis o destino que um dia o meu atual local de trabalho fosse um verdadeiro antro de homenagem ao Ayrton Senna. Além das dezenas miniaturas e de um Van Diemen que eu já tive a honra de experimentar ao longo de algumas voltas no Circuito do Estoril (um dia talvez volte a contar essa história), todos os dias deparo-me com um póster com a seguinte frase: 

“Eu sou apenas parte de uma equipa. Então, quando venço, não sou eu apenas quem vence. De certa forma, termino o trabalho de um grupo enorme de pessoas!”

Se Alain Prost era apelidado de “O Professor”, Ayrton Senna era o filósofo. Aquele que nos fazia refletir e debruçar sobre uma visão metafísica da vida, aquele que nos inspirava todos os dias a irmos mais longe e a sermos melhores do que no dia anterior. Se a forma como conduzia não for motivo suficiente, julgo que basta isto para o idolatrarmos, uma e outra vez. 

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