Circuitos dispensáveis e indispensáveis

A propagação do coronavirus pela China, razão do adiamento (ad eternum ?) do Grande Prémio deste ano

O calendário previsto para este ano é de 22 corridas. Escrevi previsto, pois devido ao Coronavirus (ou raios parta como se chama mesmo o maldito virus), o Grande Prémio da China, no autódromo internacional de Shangai, foi adiado, sem data nova anunciada (até ao momento em que escrevo este artigo).

A corrida 1000 da F1 na China em 2019 de “1000” teve muito pouco…

Mas o circuito de Shangai, tal como muitas das novas pistas que têm recebido a Fórmula 1 (F1) nos últimos anos, é um traçado como muitos desenhados por Hemann Tilke (o arquitecto oficial dos novos circuitos que querem receber a F1), ou seja, em linhas gerais, com longas retas seguidas de um “gancho” no final.

Hungaroring, o primeiro circuito permanente “Mickey Mouse”

Ou então são traçados, que como uma vez disse Nelson Piquet sobre o circuito do Hungagoring, que “se esqueceram das retas“. São pistas com um longo trecho do circuito lento ( secção do circuito ou pista “Mickey Mouse” como também é chamada), com demasiadas curvas de baixa velocidade, em que é difícil de seguir de perto o carro da frente, praticamente impossível de ultrapassar, tecnicamente pouco ou nada interessante.

O lendário duelo Senna vs Piquet no 1º Grande Prémio da Hungria em 1986
A única parte minimamente interessante do circuito de Sochi

A já mencionada pista de Shangai, ou os casos dos circuitos de Sochi na Rússia e de Abu Dhabi nos Emirados Árabes Unidos (foi causa do Grande Prémio de 2010 em Yas Marina que foi criado o famoso Drag Reduction System ou DRS…), têm um enquadramento deslumbrante, instalações de última geração, conforto e paisagens paradisíacas. Tudo o que não o traçado propriamente dito é maravilhoso, mas a configuração da pista e a qualidade das corridas são paupérrimas.

Curva 1 do Yas Marina Circuit em Abu Dhabi, que infelizmente encerra os Mundiais de F1
Tirando a pista, tudo é majestoso em Abu Dhabi

A F1, devido aos petrodólares, rublos, yuans, continua ano após ano após ano a visitar estes lindos autódromos, com boxes, paddock, bancadas, zonas vip, acessos, apoio hoteleiro, tudo de classe mundial, mas o que interessa mesmo no fim, a pista, é muito desinteressante tecnicamente e proporciona corridas soporíferas.

Outra perspectiva do único trecho interessante de Sochi

Espera-se que esta simulação seja uma realidade em 2021

É claro que a endémica extrema dificuldade na F1 de um piloto de seguir de perto o carro da frente (com as novas regras para 2021 espera-se eliminar ou pelo menos mitigar muito este problema) também não ajuda, a isso juntando-se um circuito pouco propício para ultrapassagens, temos o cocktail perfeito para uma corrida secante.

Ar limpo e ar sujo
A iluminação do circuito de Marina Bay é linda, mas a pista

Outro caso é o traçado de Marina Bay em Singapura. Um circuito citadino, corrida nocturna, iluminação linda, paisagem fantástica, fotografias para ganhar o World Press Photo, mas ao contrário do que sucede com Baku no Azerbeijão (pista também citadina mas com dois fortes pontos de ultrapassagem e corridas interessantes), em Singapura as corridas são quase sempre boas…mas para dormir uma sesta.

Dão fotografias excelentes as corridas em Singapura, mas a excelência fica por aí
A melhor parte das corridas em Barcelona, os primeiros metros…

Depois também temos as eternas procissões em Barcelona (o circuito oficial dos testes de pré temporada da F1 nos últimos anos), que é uma pista fantástica, com curvas para todos os gostos, completa, diversificada, circuito barómetro para todos os outros, mas as corridas são de desesperar de tão dormentes que são, pois é virtualmente impossível ultrapassar.

O auge dos Grandes Prémios catalães acontece nas primeiras curvas da primeira volta
Paul Ricard, uma pista outrora magnífica, hoje em dia é psicadélica, confusa e entediante

Outro Grande Prémio que não acrescenta muito à qualidade das corridas é a actual versão utilizada no circuito de Paul Ricard em França (até 1990 o desenho da pista sobretudo no primeiro sector, a reta Mistral sem a maldita chicane pelo meio, a ausência de escapatórias em asfalto, a facilidade de seguir de perto o carro da frente, tudo somado proporcionava óptimas corridas).

Duelo épico entre Capelli e Prost em 1990 no antigo e espectacular Paul Ricard
O famoso último sector do autódromo de Hermanos Rodriguez, bom mesmo só para os espectadores

O autódromo de Hermanos Rodriguez, na Cidade do México, tem de facto um último sector espectacular…mas para o público, sendo o mesmo muito desinteressante em termos de condução e pontos de ultrapassagem. Oxalá fosse possível usar a saudosa, fabulosa e ainda existente curva Peraltada, utilizada até 1992 (está “tudo maluco” e bem com o banking na última curva de Zandvoort, mas a Peraltada já tinha uma uma razoável inclinação e era simplesmente um espetáculo dentro do espectáculo ver os F1 a percorrerem a mesma ).

A fabulosa, mítica e saudosa Peraltada
Nigel Mansell lidera Prost e Johansson no antigo Kyalami

Felizmente a F1 já não vai à Coreia do Sul, Índia, Aida e às actuais versões dos outrora gloriosos circuitos de Kyalami na África do Sul e Óscar Galvez na Argentina. Infelizmente este ano volta-se a não ir à Alemanha e a Hockenheimring, que apesar de já não ser, infelizmente, a versão original com as longas retas pela floresta adentro, mesmo assim proporciona corridas fantásticas, como ainda tivemos no ano passado.

E o velho Hockenheim
Felipe Massa lidera o pelotão no excelente circuito de Istambul Park

Outro “tilkodrómo” que tinha muita qualidade era o circuito de Istambul Park na Turquia, aquela curva 8 era fabulosa e as corridas muito boas.

Sepang na Malásia é também um excelente circuito, técnico, desafiante, variado e gerava provas de grande qualidade.

Início de corrida no circuito de Sepang na Malásia, um dos bons que infelizmente já não consta do calendário
O espectacular Circuito das Américas em Austin

Um bom traçado desenhado pelo atelier de Herman Tilke é o Circuito das Américas, em Austin nos Estados Unidos, talvez a melhor criação do arquitecto alemão, um espectacular circuito, muito técnico, fluido, diversificado, bom para ultrapassar, “saiu na mouche” mesmo.

A famosa “serpente” da pista do Texas
A sempre congestionada curva 1 do Red Bull Ring

O Red Bull Ring é também uma boa pista, as corridas são quase sempre de cortar a respiração, mas a anterior versão da pista, o Osterreichring, era simplesmente alucinante, rapidíssimo, maravilhoso. No entanto, o actual circuito austríaco, é umas das boas actualizações de Tilke e não é, felizmente, como as renovações que fizeram estragos permanentes em Hockenheim, Hermanos Rodriguez, Imola, Kyalami e até no nosso próprio Autódromo do Estoril, isto só para dar alguns exemplos.

O antigo Osterreichring
Patrese e Lafitte no antigo Enzo e Dino Ferrari em Imola

Pena a F1 já não ir a Imola, apesar que a versão pré 1 de Maio de 1994 era simplesmente fabulosa, sobretudo porque se ia a fundo desde a entrada da reta da meta até à curva Tosa. Isto porque, desde 1995, existem chicanes onde antes estavam as “curvas” (coloquei aspas pois as mesmas eram feitas totalmente com o pé em baixo) Tamburello e Villeneuve. Mesmo assim, continua a ser um circuito muito técnico, desafiante e com os apaixonados tiffosi, que enchem as bancadas e abrilhantam ainda mais o espectáculo.

Bancadas pouco preenchidas na Coreia do Sul

Outra questão é o público nas bancadas e os telespectadores. Não querendo estar a ser um europeu chauvinista ou algo do género, mas o público, os telespectadores, os fãs da F1 e do desporto automóvel no geral, estão na Europa, Estados Unidos, América Latina, (no Brasil, México e Argentina sobretudo) no Japão, Austrália e pouco mais.

E casa cheia com a armada laranja no Red Bull Ring

Simplesmente não há uma base de apoio nesses novos mercados à F1, o desporto automóvel não é paixão, não é o principal entretenimento, não há cultura de corridas de automóveis. Claro que se tem de começar por algum lado obviamente. Mas por mais experiências que os responsáveis pelos destinos da competição façam, os adeptos da principal disciplina do desporto automóvel não estão nessas economias emergentes.

Outra lotação esgotada acontece quase sempre no México
Zanvoort e o seu novo banking

A FOM (Formula One Management), a Liberty Media e a FIA (Federação Internacional do Automóvel), todos recebem o seu quinhão e não deve ser pouco e a F1, apesar de até voltar e bem a um destino tradicional este ano, a Zandvoort na Holanda, continuando a fazer o que já faz há muitos anos, vai abandonando os Grande Prémios tradicionais, indo em busca de novos destinos, sem qualquer ligação emocional e histórica à F1.

Vista área do circuito de Marina Bay em Singapura

Para terminar, a F1 vai de encontro onde está o dinheiro, que já não está no Velho Continente, mas sim na Ásia, no Médio Oriente. Porque o dinheiro manda…

E a panorâmica do complexo ultra moderno e luxuoso da pista de Yas Marina em Abu Dhabi

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