A hipocrisia das corridas virtuais (e a legitimidade de sancionar quem prevarica)

Vou começar de forma solta e rápida. Mais depressa, até, do que a decisão, tomada pela Audi, de suspender o contrato que a liga a Daniel Abt, figura de proa da marca dos quatro anéis no Campeonato do Mundo de Fórmula E. Em causa, a trafulhice do piloto alemão em ter-se socorrido de um sim-racer profissional para ocupar o seu lugar no 5º evento da “Race at Home Challenge”, o desafio online criado pela competição de monolugares elétricos chancelada pela FIA durante a explosão da pandemia de Covid-19 que tem assolado o país e o mundo.

O ambiente em torno das corridas virtuais é, grosso modo, tremendamente hipócrita. Não há outra forma de o dizer quando, na grande maioria deste tipo de competições, reina uma espécie de vale-tudo em cada tirada que, em teoria, nunca, em momento algum, poderia ser alvo de qualquer tipo de condescendência no mundo real — aquele em que os pilotos que idolatramos se encontram efetivamente num circuito, mano-a-mano, porta com porta, ávidos por realizar aquela ultrapassagem ou defender a sua posição em busca do melhor resultado possível e do prestígio que os glorificará para sempre.

É por esse motivo que consigo compreender a indignação de dois dos principais protagonistas da Fórmula E, na ressaca da medida divulgada pela Audi. Uma bomba que, mais do que pôr em causa o futuro profissional de um dos seus maiores opositores em pista (“um virtual scandal com real implications”, citando o piloto Hugo Araújo), coloca em cheque uma classe profissional habituada a defender-se de duras batalhas no asfalto e não de decisões tomadas à distância de um clique. Tudo enquanto se encontram impacientemente sentados no sofá à espera de notícias que conduzam, precisamente, ao regresso do automobilismo como sempre o conhecemos.  

Se Jean-Eric Vergne repudia a ironia da suspensão pelos motivos citados e reitera que as corridas virtuais são apenas “um jogo”, o nosso António Félix da Costa alinha pelo mesmo diapasão e avança com outra medida que terá um efeito paralelo nos seus seguidores: abandonar o Twitch — uma das plataformas de streaming mais famosas do momento.

Cada um tem o direito de manifestar a sua opinião e é precisamente por esse motivo que, no caso concreto, a minha total solidariedade e concordância vão para com a decisão da Audi. Mesmo em período de confinamento, o piloto Daniel Abt continuava a ter um contrato em vigor e uma obrigação de defender, o melhor possível, as cores da marca — e com isso, as cores dos patrocinadores que garantem que o sonho aconteça. Sem falar do vínculo moral com os fãs do desporto. Talvez o mais importante grupo do leque de stakeholders, já que são os que, pelo menos até aqui, se reviam na sua carreira e conduta, apoiando-o dentro e fora da pista com os seus likes e mensagens de incentivo.

Há quem defenda que os pilotos — e desse ponto de vista, qualquer atleta, sobretudo num mundo cada vez mais mediatizado — não deveriam ter qualquer obrigação de ser um exemplo para a sociedade e que a sua individualidade, como a de todos nós, deve ser respeitada. 

Mas, como em tudo na vida, existem posições de maior ou menor responsabilidade, precisamente numa era em que esses mesmos atletas, incluindo-se aqui os pilotos de automóveis, se enquadram também na categoria de figuras públicas. O que quero dizer com isto é que, à fama inerente a qualquer pessoa que seja bem-sucedida, existe também o dever de se ser leal a quem nos apoia e de se passar, o melhor possível, uma mensagem positiva. Pode não acontecer sempre, como o sabemos, nos mais diversos casos. Mas isso não significa que o princípio-base não exista e, sobretudo, que não deva ser aplicado.

O mesmo com as regras do jogo: reservando-me o direito de não especular em demasia, porque motivações há muitas, os pilotos, gamers, youtubers ou quaisquer outros tipos de individualidades que têm hoje uma presença maciça nas redes sociais não podem estar presentes quando lhes convém e depois dizer que já não querem estar no momento em que se apercebem que, afinal, tudo o que fazem ou dizem pode, no limite, virar-se contra si numa sociedade cada vez mais escrutinada. 

Poder, até podem… porque (felizmente) continuam a ser livres para o fazer (a não ser que existam contratos assinados que dificultem o processo). Mas não lhes fica bem, sobretudo nos casos em que as tais motivações, mais do que a criação de uma relação de intimidade com os fãs e a promoção do desporto em que participam, são antes a notoriedade e os avultados acordos promocionais que essa legião de seguidores quase sempre acarreta.

Daniel Abt, vestido com as cores da Audi, numa conferência de imprensa da Fórmula E

Outro erro comum, do meu ponto de vista, é confundir-se a liberdade para se expressarem como entenderem com profissionalismo. E por profissionalismo refiro-me simplesmente à necessidade de se respeitar o que foi acordado, e apenas isso. Por mais críticas que lhe façam, muitas vezes em tom jocoso, pela forma monocórdica como responde a qualquer pergunta oriunda dos meios de comunicação social, a postura de Kimi Raikkonen é um exemplo paradigmático de alguém que cumpre quando tem de cumprir e que se diverte quando tem de se divertir, tendo negociado, ao longo dos anos, o seu contrato para garantir o mínimo de aparições públicas possíveis na sua condição de piloto de Fórmula 1. Mas, gostando-se ou não do estilo, a verdade é que… tem cumprido. 

Mesmo sem ser um fã de conferências de imprensa (ou de qualquer atividade mediática), é reconhecida ao finlandês uma elevada dose de profissionalismo. Tudo o que não cabe na decisão de Daniel Abt, sobretudo quando a série virtual que representava era precisamente a variante online da sua principal ocupação: ser piloto de Fórmula E pela Audi Sport Abt Schaeffler — uma equipa gerida parcialmente pelo pai, figura de proa do DTM e com uma relação de longa data com a Audi que extrapola, em muito, a parte desportiva, atuando, durante muitos anos, como uma espécie de AMG da marca do Grupo VW.

Recuando um pouco no tempo, acredito que o ponto de não retorno desta polémica começou, na verdade, no dia 14 de Abril, quando Kyle Larson foi apanhado a fazer um comentário racista durante uma corrida de Nascar na plataforma iRacing. E embora não seja a mesma coisa, porque não é, os dois comportamentos são indefensáveis, ao contrário do que se diz por aí. 

Para os que clamorosamente condenaram o comunicado oficial da Audi, recordando, à primeira oportunidade, outro logro chamado “Diesel Gate”, convém ler bem o que foi escrito e perceber que o primeiro passo na recuperação da imagem de uma marca passa precisamente pela consistência das suas medidas.

“A integridade, transparência e o consistente cumprimento com as regras aplicáveis são prioridades de topo para a Audi — tal aplica-se a todas as atividades em que a marca se encontra envolvida, sem excepção. Por este motivo, a Audi Sport decidiu suspender o piloto Daniel Abt com efeito imediato”.

Tudo o que destaco a negrito diz-nos bem como a Audi se encontra focada em revitalizar a sua imagem, e sobretudo em não fazer qualquer tipo de concessões nesta matéria. Independentemente de se tratar de um jogo, o vínculo de Daniel Abt para com a marca era real. E a sua obrigação era representá-la da melhor forma possível no que lhe foi pedido.

Quando comecei a escrever este artigo, ainda não eram conhecidas as motivações do piloto para a escolha que fez no dia 23 de Maio. E se ontem, no podcast do CarOnline.TV, disse não ter qualquer tipo de compaixão perante o sucedido, realçando que, na minha opinião, Daniel Abt colheu o que semeou, hoje vejo-me mais compreensivo, não pela decisão que o piloto tomou, mas sim pela profunda ingenuidade em torno do que fez. Sobretudo porque nunca saberemos, de forma absolutamente fidedigna, que tudo não passou de uma brincadeira sem aparente malícia que, mais cedo ou mais tarde, viria a ser revelada pelo próprio — como desvenda no vídeo que agora partilho. 

No entanto, mesmo sendo esse o caso, existe uma ordem de razão que se mantém incontornável: a obrigação de Abt em informar a entidade patronal das suas reais intenções. Primeiro, para ter aprovação prévia do sucedido. Depois, para as duas partes prepararem, em conjunto, a comunicação a ser realizada, garantindo proteção para ambas no caso deste spin sair ao contrário, como infelizmente se veio a verificar para a sua carreira.

Num comentário muito pessoal, penso que, ao contrário também do que se diz, quem fica a perder não são os fãs das corridas virtuais. Já existiam antes desta súbita invasão dos protagonistas do real e irão continuar a existir porque amam o seu desporto como quem gosta de corridas nos autódromos. No meu entender, continuam a ser realidades paralelas com alguns aspetos em comum, que obviamente se podem complementar, mas cuja concretização é totalmente díspar uma da outra.

Se houve um crescimento avassalador em tempo de pandemia e com o crescente protagonismo de figuras como Max Verstappen, Lando Norris e até mesmo António Félix da Costa? Indiscutivelmente. Mas quem ganhou, na verdade, foram as marcas que desenvolvem o software e hardware, e naturalmente as séries reais que aproveitaram este tempo de paragem forçada para continuar a clamar para si a atenção do público e dos patrocinadores no imperativo de continuarem a ser relevantes, para a sua própria sobrevivência. 

Com ou sem boicote dos pilotos profissionais, o sim racing vai continuar a fazer o seu caminho e o mesmo acontecerá com o automobilismo assim que regressarem as corridas. Só é pena que Daniel Abt não tenha percebido que, no período do digital, as fronteiras entre ambos são cada vez mais ténues e que, muito provavelmente, o desporto tradicional necessita mais do virtual para atrair novos fãs quando, a todo o momento, se vê confrontado com novas formas de entretenimento cada vez mais disruptivas e acessíveis — corridas de drones e afins.

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